Essa entrevista foi uma das primeiras realizadas por nós, ainda no ano de 2009. Estávamos começando nossa aventura, com passos ainda tímidos, mas com a certeza do nosso objetivo: dar voz às pessoas que participaram da construção de Queimados, ouvir suas histórias, remexer suas memórias... e tudo o mais que elas estivessem dispostas a compartilhar conosco. Desde essa época, nosso desafio tem sido, para nós, uma experiência rica e gratificante. Segundo a historiadora e antropóloga, Verena Alberti: "O ideal, numa situação de entrevista, é que se caminhe em direção a um diálogo informal e sincero, que permita a cumplicidade entre entrevistado e entrevistador, à medida que ambos se engajam na reconstrução, na reflexão e na interpretação do passado." (ALBERTI, 2005: 102) Contudo, é muito difícil dimensionar, por meio de palavras, a relação que se estabelece entre entrevistador e entrevistado. Afinal, somos estranhos, solicitando permissão para acessar um terreno do qual não fazemos parte diretamente: as memórias construídas por cada um.
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Em foto recente, o Sr. Reinaldo Pimentel junto a uma de suas grandes paixões: o radioamadorismo. |
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O Sr. Reinaldo, junto a amigo, nos tempos em que servira à Marinha do Brasil. |
Assim, se mudou para Queimados, onde chegou em um ano emblemático: 1958, o ano dos festejos do Centenário da Estrada de Ferro, apropriado pela população local como o "Centenário de Queimados." A importância do trem se justificava: esse era, então, o único meio de transporte público que conectava Queimados ao centro de Nova Iguaçu e, em uma perspectiva mais ampla, ao centro do Rio de Janeiro. Nessa época, poucas eram as ruas pavimentadas, a eletrificação da ferrovia e a abertura da Dutra eram fatos recentes. Essa constatação nos dá a noção do quanto a trajetória de Queimados, até a conquista da emancipação, foi longa! Dos primeiros murmúrios de insatisfação com Nova Iguaçu, até a sucedida emancipação, em 1990, passaram-se quatro décadas!
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Sr. Reinaldo, na frente da Loja Ritz, em seu primeiro endereço, na Rua José Maria Coelho. |
O tempo ia passando e a sociedade estabelecida entre os senhores Reinaldo Pimentel e Antônio Alves foi crescendo. A Loja Ritz passou a comercializar eletrodomésticos, se tornando uma referência para os queimadenses. Em 1964, a loja se transfere para a Avenida Elói Teixeira, do outro lado da linha férrea, acompanhando o crescimento do local. Nessa época, abriram outra Loja Ritz, em Japeri, que ficou sob a administração do Sr. Antônio, enquanto o Sr. Reinaldo permaneceu em Queimados.
Além dessas histórias, o Sr. Reinaldo falou também sobre a fundação da Loja Maçônica Esperança de Queimados, da qual participou, ao lado de pessoas como o Professor Joaquim de Freitas e o Sr. Virgílio Lopes. Tal fato nos chamou a atenção, na medida que a Maçonaria desempenhou significativo papel na organização do movimento pró emancipacionista em Queimados. Mas esse é um assunto para os próximos artigos...
O Sr. Reinaldo Pimentel faleceu em outubro de 2011. A publicação desse artigo póstumo, contendo detalhes da entrevista concedida por ele a nós, é uma forma de homenageá-lo e reiniciar nosso trabalho nesse novo ano!
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*Fotografias gentilmente cedidas pela Família Pimentel.