As
fontes imagéticas constituem valiosa e instigante tipologia documental a ser
explorada por historiadores, arqueólogos, antropólogos, assim como pesquisadores
das ciências naturais. Entretanto, nem
sempre essa foi uma possibilidade aceita pela historiografia. Durante muito tempo, especialmente durante os
séculos XVIII e XIX, historiadores tendiam a supervalorização da documentação
escrita, considerada oficial.
Entretanto, a invenção da daguerreotipia, precursora da fotografia, ainda na primeira metade do século XIX, muito contribuiu para a superação dessa tendência historiográfica. Logo que foi criada, a fotografia adquiriu a reputação de registro fiel da realidade. Esse juízo pode soar um tanto irônico hoje, em tempos de uso quase indiscriminado de recursos de softwares como o Photoshop. Porém, mesmo a partir de fins do século XIX e através do século XX, a fotografia já sofria contestações significativas ao seu status de "portadora da realidade." Esse debate, levado à academia, tem produzido interessantes trabalhos, no sentido de buscar compreender o estatuto da fotografia, seus usos pela história e possibilidades metodológicas para sua abordagem.
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Vasco Giacometti registra, com suas lentes, um grupo de
fotógrafos no Rio de Janeiro - década de 1940. |
Assim, refletindo sobre o exposto, fomos em busca dos registros fotográficos de um dos momentos significativos da história de Queimados: os festejos em comemoração ao centenário de sua estação ferroviária! Para falar sobre esse momento e compartilhar conosco um pouco de suas próprias memórias, nos encontramos, no dia 02/03/2013, com Ângela Giacometti Ribeiro, filha do imigrante italiano Vasco Giacometti, fotógrafo responsável pelos registros imagéticos de tal ocasião.
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Vasco Giacometti, o "fotógrafo do Centenário"
Foto: Viriato Giacometti - década de 1950. |
Falar da fotografia da década de 1950 se revelou uma aventura repleta de emoções e muitas curiosidades. Nascida no Rio de Janeiro, Ângela Giacometti se mudou com a família aos 7 anos de idade, para Queimados por conta de um drama familiar: a perda precoce de sua cunhada. Seus dois irmãos mais velhos, ambos médicos, já tinham se estabelecido há algum tempo no, então, Segundo Distrito de Nova Iguaçu. Nessa época, seu pai, Vasco Giacometti, já trabalhava como fotógrafo, tendo se afastado, embora não totalmente, de sua profissão original, ligada à construção civil, por conta de enfermidade renal.
Vasco Giacometti chegou a ter dois estúdios na cidade do Rio de Janeiro, antes de se mudar com a família para Queimados, e estabelecer estúdio próximo ao Colégio Manoel Pereira. As fotografias, que registraram os festejos do centenário da estrada de ferro em Queimados, são dele: o primeiro foto-jornalista que atuou na região. Com trabalhos publicados até em revistas no exterior, o senhor Vasco trabalhou como fotógrafo, em uma época em que as fotografias eram produzidas em processo quase artesanal. Desse trabalho, Ângela dá o seu testemunho:
"Hoje a fotografia é uma coisa que você pega uma máquina... A máquina fotográfica é um lazer. Naquela época, você retocar era tortura. Gasto, para fazer um 3 X 4 bem retocado, você gastava uma hora e meia sob uma luz, com um lápis, com uma ponta de cinco centímetros, feita com lixa finíssima, mais fina que uma agulha, e você tinha que ficar com o negativo e um vidro fosco sob uma lâmpada. Então, pra cada 3 X 4, era o mínimo de uma hora e meia pra dar um retoque aprimorado."
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Ângela Giacometti Ribeiro e seu marido, Walmir Ribeiro: o cuidado em manter vivas, as memórias da família. |
Os irmãos, apesar da vocação para a medicina, ajudavam o pai desde jovens, no trabalho de retoque das fotografias. Segundo nossa entrevistada, foi com eles que ela se apaixonou pela fotografia e aprendeu as técnicas de retoque e coloração das imagens, fundamentais em uma época em que os registros fotográficos ainda eram feitos em preto e branco e sem a comodidade dos atuais registros digitais.
De fato, percebemos aí, mais uma marca inquestionável da modernidade: o caráter quase descartável das fotografias, atualmente. Todo o meticuloso trabalho do fotógrafo daquela época, desde a escolha do equipamento e do filme até o processo de revelação e retoque das fotografias, se dilui na tecnologia que nos permite reproduzir uma cena quase instantaneamente e descartá-la, caso o registro não tenha sido satisfatório. Para as imperfeições ou para as marcas da ação do tempo nas fotografias, um bom computador e a utilização dos softwares apropriados resolvem o problema em poucos minutos.
Compreendemos que o fenômeno da modernidade traz em si essas contradições. Ao mesmo tempo em que apura e refina as técnicas do trabalho fotográfico, também dota tais registros de uma efemeridade quase banal. Hoje em dia, qualquer um pode ter uma máquina fotográfica e, com ela, fazer seus próprios registros de uma festa ou qualquer outro acontecimento. Os avanços tecnológicos permitiram que elas estivessem presentes em celulares e tablets, sendo transportadas, muito facilmente, para qualquer lugar.
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Locomotiva "Brasil," identificada pela população, à época dos festejos do centenário da ferrovia, como "Baronesa" - 1958. Foto: Vasco Giacometti. Arquivo: Wagner Langer |
Isso posto, buscamos nesses registros, descobrir um pouco das memórias queimadenses e compartilhá-las, principalmente, com aqueles que não viveram essa época. Observamos que o centenário da ferrovia, em 1958, foi um acontecimento marcante, ainda muito vívido nas memórias dos queimadenses. Para nos ajudar a contar essa história, além dos registros textuais, podemos contar também com a documentação imagética, registrada em fotografias, graças ao valioso trabalho de Vasco Giacometti. Desde que analisados com base em metodologia apropriada, ambos os tipos documentais são instigantes fontes para o estudo do passado de Queimados.