quarta-feira, 20 de março de 2013

A cor da Baixada: escravidão, liberdade e pós abolição no Recôncavo da Guanabara

A Baixada Fluminense tem uma cor? Qual seria a cor da Baixada Fluminense? Com esse tipo de provocação, Nielson Bezerra traça parte da história do Recôncavo do Rio de Janeiro, através de uma análise sobre a vida social da região, protagonizada pelos africanos e afrodescendentes que viveram as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Por que um território que foi povoado por uma população majoritariamente negra não tem referências suficientes na historiografia produzida pela região? Mais uma vez o autor nos provoca o pensamento... 
Esse pode ser classificado como um ensaio em aberto, muito mais interessado em iniciar um debate do que encerrar seus argumentos. Um livro necessário para que a Baixada Fluminense possa enxergar em seu passado um espaço de reflexão sobre os seus problemas atuais.
Mais uma vez Nielson Bezerra demonstra o seu interesse em atingir o leitor comum, privilegiando narrativas de personagens reais, cujas histórias são tão verdadeiras que qualquer morador da região confunde com a trajetória de seus próprios antepassados. Conquanto, como um historiador de talento internacionalmente reconhecido, Bezerra não se furta dos métodos e das diversas concepções teóricas, demonstrando ser possível um diálogo entre a produção científica formal e o leitor comum. O livro é divertido, suas histórias envolventes e suas recorrentes provocações estão em cada página discorrida.
"A cor da Baixada” é um livro em que o cidadão de cor, ou seja, pretos e mestiços, que formam a maioria da população das cidades do território, são agentes de sua própria história. As escolhas individuais, os interesses pessoais, as estratégias coletivas e as diferentes formas de sociabilidades são exploradas em cada capítulo. Esse é um livro para aqueles que desejam saber um pouco mais sobre o longo tempo em que a escravidão perdurou como modalidade de exploração do trabalho africano no Brasil. Mas esse é, sobretudo um livro para aqueles que têm compromisso com a liberdade, pois através de sua leitura, será possível perceber os difíceis meandros percorridos para a construção da cidadania da população de cor nos primeiros anos republicanos de nossa história. (texto informado pelo autor)


Nielson Rosa Bezerra. A cor da Baixada: escravidão, liberdade e pós abolição no Recôncavo da Guanabara. Duque de Caxias: APPH-CLIO, 2012.
Contatos: bezerranielson@hotmail.com

segunda-feira, 4 de março de 2013

Fotografia em revista: um pouco da história de Queimados, através dos registros de Vasco Giacometti

As fontes imagéticas constituem valiosa e instigante tipologia documental a ser explorada por historiadores, arqueólogos, antropólogos, assim como pesquisadores das ciências naturais.  Entretanto, nem sempre essa foi uma possibilidade aceita pela historiografia.  Durante muito tempo, especialmente durante os séculos XVIII e XIX, historiadores tendiam a supervalorização da documentação escrita, considerada oficial. 
Entretanto, a invenção da daguerreotipia, precursora da fotografia, ainda na primeira metade do século XIX, muito contribuiu para a superação dessa tendência historiográfica.  Logo que foi criada, a fotografia adquiriu a reputação de registro fiel da realidade.  Esse juízo pode soar um tanto irônico hoje, em tempos de uso quase indiscriminado de recursos de softwares como o Photoshop.  Porém, mesmo a partir de fins do século XIX e através do século XX, a fotografia já sofria contestações significativas ao seu status de "portadora da realidade."  Esse debate, levado à academia, tem produzido interessantes trabalhos, no sentido de buscar compreender o estatuto da fotografia, seus usos pela história e possibilidades metodológicas para sua abordagem.  
Vasco Giacometti registra, com suas lentes, um grupo de 
fotógrafos no Rio de Janeiro - década de 1940.
Assim, refletindo sobre o exposto, fomos em busca dos registros fotográficos de um dos momentos significativos da história de Queimados: os festejos em comemoração ao centenário de sua estação ferroviária!  Para falar sobre esse momento e compartilhar conosco um pouco de suas próprias memórias, nos encontramos, no dia 02/03/2013, com Ângela Giacometti Ribeiro, filha do imigrante italiano Vasco Giacometti, fotógrafo responsável pelos registros imagéticos de tal ocasião.
 Vasco Giacometti, o "fotógrafo do Centenário"
Foto: Viriato Giacometti - década de 1950. 
Falar da fotografia da década de 1950 se revelou uma aventura repleta de emoções e  muitas curiosidades.  Nascida no Rio de Janeiro, Ângela Giacometti se mudou com a família aos 7 anos de idade, para Queimados por conta de um drama familiar: a perda precoce de sua cunhada.  Seus dois irmãos mais velhos, ambos médicos, já tinham se estabelecido há algum tempo no, então, Segundo Distrito de Nova Iguaçu.  Nessa época, seu pai, Vasco Giacometti, já trabalhava como fotógrafo, tendo se afastado, embora não totalmente, de sua profissão original, ligada à construção civil, por conta de enfermidade renal.  
Vasco Giacometti chegou a ter dois estúdios na cidade do Rio de Janeiro, antes de se mudar com a família para Queimados, e estabelecer estúdio próximo ao Colégio Manoel Pereira.  As fotografias, que registraram os festejos do centenário da estrada de ferro em Queimados, são dele: o primeiro foto-jornalista que atuou na região.  Com trabalhos publicados até em revistas no exterior, o senhor Vasco trabalhou como fotógrafo, em uma época em que as fotografias eram produzidas em processo quase artesanal.  Desse trabalho, Ângela dá o seu testemunho: 
"Hoje a fotografia é uma coisa que você pega uma máquina... A máquina fotográfica é um lazer.  Naquela época, você retocar era tortura.  Gasto, para fazer um 3 X 4 bem retocado, você gastava uma hora e meia sob uma luz, com um lápis, com uma ponta de cinco centímetros, feita com lixa finíssima, mais fina que uma agulha, e você tinha que ficar com o negativo e um vidro fosco sob uma lâmpada.  Então, pra cada 3 X 4, era o mínimo de uma hora e meia pra dar um retoque aprimorado."  
Ângela Giacometti Ribeiro e seu marido, Walmir
Ribeiro: o cuidado em manter vivas, as memórias
da família.
Os irmãos, apesar da vocação para a medicina, ajudavam o pai desde jovens, no trabalho de retoque das fotografias.  Segundo nossa entrevistada, foi com eles que ela se apaixonou pela fotografia e aprendeu as técnicas de retoque e coloração das imagens, fundamentais em uma época em que os registros fotográficos ainda eram feitos em preto e branco e sem a comodidade dos atuais registros digitais.  
De fato, percebemos aí, mais uma marca inquestionável da modernidade: o caráter quase descartável das fotografias, atualmente.  Todo o meticuloso trabalho do fotógrafo daquela época, desde a escolha do equipamento e do filme até o processo de revelação e retoque das fotografias, se dilui na tecnologia que nos permite reproduzir uma cena quase instantaneamente e descartá-la, caso o registro não tenha sido satisfatório.  Para as imperfeições ou para as marcas da ação do tempo nas fotografias, um bom computador e a utilização dos softwares apropriados resolvem o problema em poucos minutos.  
Compreendemos que o fenômeno da modernidade traz em si essas contradições.  Ao mesmo tempo em que apura e refina as técnicas do trabalho fotográfico, também dota tais registros de uma efemeridade quase banal.  Hoje em dia, qualquer um pode ter uma máquina fotográfica e, com ela, fazer seus próprios registros de uma festa ou qualquer outro acontecimento.  Os avanços tecnológicos permitiram que elas estivessem presentes em celulares e tablets, sendo transportadas, muito facilmente, para qualquer lugar.  
Locomotiva "Brasil," identificada pela população, à época dos
festejos do centenário da ferrovia, como "Baronesa" - 1958.
Foto: Vasco Giacometti.  Arquivo: Wagner Langer
Isso posto, buscamos nesses registros, descobrir um pouco das memórias queimadenses e compartilhá-las, principalmente, com aqueles que não viveram essa época.  Observamos que o centenário da ferrovia, em 1958, foi um acontecimento marcante, ainda muito vívido nas memórias dos queimadenses.  Para nos ajudar a contar essa história, além dos registros textuais, podemos contar também com a documentação imagética, registrada em fotografias, graças ao valioso trabalho de Vasco Giacometti.  Desde que analisados com base em metodologia apropriada, ambos os tipos documentais são instigantes fontes para o estudo do passado de Queimados.            
                         

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Hora da Aventura II - Parque Municipal do Morro da Torre


A Hora da Aventura: primeira
caminhada ao topo do Morro da
Torre.
Uma nova caminhada ao alto do Morro da Torre está marcada para o próximo sábado, dia 15/12.  Partindo às 15:30, do tradicional ponto de encontro na Praça N. Srª.  da Conceição, no centro de Queimados, nossa caminhada contará, dessa vez, com a presença de técnicos ambientais que irão mapear a área do morro que deverá formar o futuro Parque Municipal do Morro da Torre.  Esse é o momento de reunirmos o maior número possível de pessoas interessadas na preservação das áreas verdes que ainda restam em nossa cidade.  Nosso objetivo não é só o atendimento a uma demanda da população por uma área de lazer.  Essa é também uma luta pela necessidade urgente de vivermos em uma cidade mais saudável, legado que certamente deixaremos para nossos filhos e netos.  Contamos com a sua participação!
Vista parcial do Morro da Torre.

OBS.: O convite para mais esse encontro pela preservação do meio ambiente de Queimados encontra-se circulando pela rede, através do nosso perfil no Facebook: http://www.facebook.com/patrimonio.queimados.  Acesse nosso perfil e ajude-nos a divulgar "A Hora da Aventura II - Parque Municipal do Morro da Torre" em: http://www.facebook.com/events/376496329111744/

domingo, 11 de novembro de 2012

Maratona Cultural agita Engenheiro Pedreira, tendo como tema municípios da Baixada Fluminense


Alunos do 2º ano executam performance, lembrando
os doentes do manicômio Dr. Eiras, em Paracambi.
Os alunos da turma 81 falam um pouco sobre os distritos
de Nova Iguaçu.
Sábado, dia 10/11 foi dia de Maratona Cultural em Engenheiro Pedreira, Japeri.  A galera do Educandário Senhor do Bonfim realizou uma verdadeira gincana, unindo suas turmas do Segundo Segmento do Ensino Fundamental e também do Ensino Médio, em torno de um objetivo: conhecer e dar a conhecer um pouco mais sobre essa região, tão discriminada sob vários aspectos, que é a Baixada Fluminense.  Ao todo, foram 10 turmas abordando, cada uma, um dos 10 municípios que compõem uma das possíveis noções de Baixada Fluminense.  Essas turmas organizaram, ao redor da quadra poliesportiva do colégio, tendas ornamentadas representando os municípios de Magé, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Queimados, Belford Roxo, Japeri, Nilópolis, Seropédica, Paracambi e São João de Meriti.  Nesses espaços, cartazes, fotografias, mapas e objetos variados lembravam um pouco da história e das características naturais dessas cidades.  Cada turma também apresentou mais um pouco da cultura local, por meio da exibição de performances no palco.
A galerinha do 1º ano executa performance, lembrando
o samba da Beija Flor de Nilópolis.
Nós, do Memória e Patrimônio Histórico de Queimados, fomos acompanhar de perto essa louvável inciativa do Educandário Senhor do Bonfim, a convite da diretora Valéria Resende e por intermédio da professora de Artes, Maria do Socorro.  A professora Maria do Socorro, queimadense que acompanha de perto nosso trabalho, participou ativamente do evento, orientando a turma 82, que ficou responsável por apresentar a cidade de Queimados na Maratona Cultural.  Ao chegarmos ao colégio, fomos convidados a participar do corpo de jurados que avaliaria as exposições.  Ficamos imensamente satisfeitos em poder participar ativamente desse momento, onde um colégio da Baixada Fluminense propõe uma atividade que leva ao conhecimento de seus alunos, as potencialidades do local onde eles nasceram e vivem, ainda que essa região seja, historicamente, muito discriminada.
Professora Maria do Socorro e aluna da 82, no stand da
cidade de Queimados.
Ao final, ficamos sabendo que, no resultado da maratona, ganhou a equipe da turma 82, que apresentou a cidade de Queimados com grande criatividade.  Parabéns aos alunos da 82 e à professora Maria do Socorro, que garantiram um passeio à cidade do Rio de Janeiro, o que será, sem dúvida, mais uma ocasião para uma enriquecedora experiência em grupo.


O Senhor Roberto, administrador do
teatro-escola de Queimados, participa
da apresentação da turma 82
Alunos da turma 82 exibe produtos que,
outrora, foram a base da economia
de Queimados.


Professor Nilson Henrique com membros do corpo docente do Educandário
Senhor do Bonfim.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sim: Queimados também tem memória e é capaz de escrever sua própria história!


"Vivemos uma era de colecionadores. Registramos e guardamos tudo (...) Existe um culto ao passado, que se expressa no consumo e mercantilização de diversas modas 'retrô' (...) No espaço público, os arquivos crescem, as datas comemorativas se multiplicam, a necessidade de placas de recordação e monumentos são permanentes. E os meios de comunicação massivos estruturam e organizam essa presença do passado em todos os âmbitos da vida contemporânea." (JELIN, 2002: 9)

De cima para baixo - Luiz Alonso, Carlos
Vilela e Josias Mattos: pessoas que
fizeram parte do movimento pró
emancipação, durante entrevistas para
o nosso projeto.
A afirmação, introduzida pela socióloga argentina Elizabeth Jelin, nos leva a pensar sobre o momento pelo qual a cidade de Queimados está passando.  Prestes a completar 22 anos de emancipação, percebemos um empenho coletivo da população queimadense em remexer em suas memórias e buscar "uma resposta ou reação, diante das mudanças rápidas e de uma vida sem âncoras ou raízes." (Idem)  Aquilo que Jelin chama de "vida sem âncoras ou raízes" se insere na perspectiva da aceleração da vida contemporânea, incômodo expresso na maioria das entrevistas concedidas a nós, por antigos queimadenses.  A chegada da modernidade, argumento muito presente nos recentes discursos sobre Queimados, traz em si, uma gama de questionamentos acerca da extensão dessa dita modernidade e seus impactos positivos e negativos sobre a cidade.  
Sem dúvida, a memória coletiva é um campo bastante instigante, a partir do qual podemos propor a escrita da história da cidade.  Nessa perspectiva, percebemos que o "incômodo" revelado pelos depoentes, coloca em choque passado e presente, da mesma forma que introduz dúvidas acerca do futuro que se deseja para si e para Queimados.  As múltiplas memórias, que tem sido compartilhadas conosco ao longo dessa pesquisa falam muito sobre a identidade queimadense, que vem sendo gradualmente forjada desde a época da emancipação.
Ao iniciarmos nossas pesquisas, nos debruçando sobre as disputas e tensões relacionadas à memória e à identidade, percebemos que a documentação pertinente aos debates que conduziram à emancipação queimadense estão dispersos em acervos particulares.  Essa constatação nos conduz a pensarmos criticamente sobre as dificuldades representadas pela quase total ausência de políticas públicas que prevejam a guarda e a preservação de tais documentos.  Observamos, com evidente preocupação, a forte possibilidade de perda sistemática desses registros, sem que se possa preservá-los adequadamente e sem que eles sejam acessíveis ao público, quase sempre desejoso de conhecer um pouco mais da sua história.
Registro de reunião da "Comissão Pró-
Emancipação de Queimados, Engenheiro
Pedreira, Japeri e Cabuçu", em 1988:
primeiro momento da luta pela
emancipação. 
Talvez esteja mais que na hora de propormos a criação de um espaço público de guarda desses "pequenos fragmentos de memória", pensando no fato de que uma cidade não se constroi só com concreto e aço, mas também com a preservação das memórias de seus cidadãos, material indispensável para a contínua operação de formação e reforço das identidades locais.  A pesquisa histórica realizada sobre esse instigante material é um desafio que assumimos há cerca de 4 anos e que está profundamente ligado à essas questões.  Acreditamos que alguns frutos desse trabalho já estão sendo colhidos, sob a forma da participação interativa dos leitores desse blog e do nosso perfil no Facebook.  Inestimável tem sido, também, a disponibilidade das pessoas que aceitaram conceder-nos entrevistas sobre suas histórias de vida e compartilhar conosco seus registros particulares, como fotografias, jornais, cartas etc.    Outros frutos desse desafio são traduzidos na forma de uma Monografia de Especialização em História do Rio de Janeiro, pela Universidade Federal Fluminense e, esperamos no próximo ano, uma Dissertação de Mestrado, a ser defendida junto ao Programa de Pós Graduação em História Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.  Por isso, hoje, ousamos sonhar com a criação de um Centro de Memória que possa abarcar, em toda a sua complexidade, o problema de preservação desse patrimônio histórico, antes que o mesmo se perca pela ação implacável do tempo...         
Panfletos distribuídos à população, por ocasião do segundo plebiscito
pela emancipação. Arquivo particular de Nilson Henrique.